Entre Luzes e Desejos

Entre Luzes e Desejos


Capítulo 1 – A Noite Que Mudou Tudo


Priscila quase não foi.
Ficou alguns minutos sentada na cama, olhando o próprio reflexo no espelho. Um ano solteira. Um ano reconstruindo pedaços que um relacionamento tóxico tinha quebrado. Ela tinha prometido a si mesma que não se deixaria envolver tão fácil de novo.
Mas naquela noite ela queria se sentir viva.
A balada estava cheia. Luzes coloridas atravessavam o salão, a música pulsava no peito, e o ar tinha cheiro de perfume caro e liberdade.
Foi quando ela viu Mariana.
Não foi imediato como um raio. Foi pior. Foi lento.
Primeiro o olhar. Sustentado. Curioso. Um sorriso discreto de canto de boca. Só isso.
Priscila virou o rosto fingindo desinteresse, mas o coração já estava acelerado demais.
Minutos depois, andando entre as pessoas, elas se esbarraram pela primeira vez. Ombro com ombro.
— Desculpa — as duas falaram ao mesmo tempo.
Riram.
E ficaram se olhando por um segundo a mais do que o necessário.
Nada além disso.
Mas o clima já estava plantado.
A segunda vez não demorou. Na pista, no meio da música, Mariana segurou levemente o braço de Priscila para não deixar que ela fosse empurrada.
A mão demorou a soltar.
— Acho que a gente precisa parar de fingir que é coincidência — Mariana disse perto do ouvido dela.
A voz quente fez o corpo de Priscila arrepiar inteiro.
A conversa começou ali mesmo, quase gritando por causa da música, rindo, se aproximando para escutar melhor. A dança veio naturalmente. Primeiro um espaço respeitoso. Depois menos. Depois nenhum.
Os corpos começaram a acompanhar o ritmo da música como se já se conhecessem.
O primeiro beijo aconteceu sem anúncio. Mariana puxou Priscila pela cintura com firmeza suave, e quando os lábios se encontraram, foi como se a pista inteira tivesse desaparecido.
Intenso. Quente. Cheio de vontade contida.
Priscila sentiu algo que não sentia há muito tempo: desejo sem medo.
A noite foi ficando mais densa. As mãos exploravam, as respirações ficavam mais pesadas. Entre risadas e olhares, decidiram sair dali.
No carro, o silêncio era elétrico.
No quarto do motel, a luz baixa deixava tudo mais íntimo. Mariana se aproximou devagar, como se estivesse descobrindo algo raro. Cada toque parecia estudado, atento às reações de Priscila.
E quando se entregaram uma à outra, não foi só físico.
Foi intenso. Foi profundo. Foi libertador.
Priscila nunca tinha sentido aquilo. Não era só prazer — era conexão. Era ser vista. Era ser desejada com cuidado e intensidade ao mesmo tempo.
Na manhã seguinte, o clima era diferente.
A luz entrando pela cortina trouxe uma leve timidez. Elas riram baixinho, meio sem saber o que dizer. Mariana brincou com a franja de Priscila.
— Ontem foi… — Mariana começou.
— Eu sei — Priscila respondeu, sorrindo.
Antes de se despedirem, trocaram números.
— Me chama — Mariana disse.
— Pode deixar.
E enquanto cada uma seguia seu caminho, havia algo diferente no ar.
Não parecia uma noite qualquer.

Capítulo 2 – Entre Cafés, Família e Sentimentos


Depois daquela primeira noite, nada voltou a ser casual.
As mensagens deixaram de ser apenas “chegou bem?” e passaram a ser “como foi seu dia?”, “você almoçou?”, “tá cansada?”. Pequenos cuidados que, sem perceber, foram criando laços.
Elas começaram falando sobre trabalho.
Priscila contava das responsabilidades, da rotina puxada, dos planos profissionais. Mariana ouvia com atenção genuína. Mariana falava das metas, dos desafios, das frustrações do dia a dia. Priscila incentivava, aconselhava, ria junto.
Até que Mariana mandou:
— Vamos sair sem música alta dessa vez? Um café, talvez?
Priscila demorou três minutos olhando para a mensagem antes de responder.
— Vamos.
No café, o clima era diferente da balada. Sem luzes piscando. Sem barulho. Só as duas, frente a frente.
Mariana estava linda, mas mais serena. Priscila percebeu detalhes que na noite da balada tinham passado despercebidos: o jeito como ela segurava a xícara, o sorriso tímido antes de fazer uma pergunta mais pessoal.
A conversa foi ficando mais profunda. Falaram de infância. De medos. De decepções amorosas.
Foi nesse momento que Priscila percebeu: não era só atração.
Era interesse.
De repente, quase como cena de filme, a mãe e a tia de Priscila entraram no mesmo café.
— Priscila? Minha filha?!
O susto foi imediato.
Mariana arregalou os olhos, mas manteve a postura.
Priscila respirou fundo.
— Mãe… essa é a Mariana.
Houve aquele segundo de silêncio que parece uma eternidade.
Mas a mãe sorriu.
A tia também.
A conversa fluiu leve. Entre risadas e perguntas discretas, veio o convite:
— Daqui a quinze dias é aniversário da Priscila. Você vai, viu?
Mariana olhou para Priscila, divertida.
— Se ela me convidar oficialmente…
Priscila sentiu as bochechas queimarem.
— Eu convido.
E durante os quinze dias seguintes, elas se aproximaram ainda mais.
Começaram a se ver com frequência. Cinema. Caminhadas. Jantar simples em casa. Uma passou a conhecer o espaço da outra. Mariana levou Priscila para conhecer sua casa. Priscila mostrou o quarto onde cresceu.
A intimidade não era só física. Era emocional.
O aniversário chegou.
Priscila achava que talvez Mariana não fosse. Talvez fosse cedo demais.
Mas quando a campainha tocou e ela viu Mariana ali, com um sorriso e um presente nas mãos, o coração disparou.
Mariana conheceu a família inteira. Conversou, riu, ajudou a servir bolo. Parecia parte daquele ambiente.
No fim da festa, quando os convidados começaram a ir embora, Mariana sussurrou:
— Posso roubar a aniversariante agora?
E Priscila foi.
Foram comemorar só as duas. Um jantar simples, mas cheio de olhares demorados. Depois, Mariana a convidou para dormir em sua casa.
Quando a noite caiu e o silêncio tomou conta do quarto, o clima mudou.
Os toques eram mais confiantes agora. Mais intensos. Havia desejo, mas também havia carinho. Cada beijo parecia dizer algo que nenhuma das duas ainda tinha coragem de falar.
Priscila se entregou completamente. Sentiu-se desejada, valorizada, segura.
Foi intenso. Profundo. Marcante.
Depois, deitadas, com a respiração ainda tentando se acalmar, Mariana ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu tô querendo algo a mais com você.
A frase ficou suspensa no ar.
Priscila sentiu o coração apertar.
— Mariana…
— Eu sei que é recente. Mas não é só físico pra mim.
Priscila virou de lado, encarando o teto.
— Eu vou pra Portugal.
O silêncio voltou.
— Um ano. No mínimo.
Mariana respirou fundo.
— E você quer ir?
— Quero. É importante pra minha carreira. Mas… — ela engoliu seco — eu não tava procurando relacionamento. Só que quando eu te conheci… tudo mudou.
Mariana segurou a mão dela.
— E agora?
Priscila fechou os olhos.
Ela queria viver aquilo. Mas tinha medo de se prender. Medo da distância. Medo de prometer algo que não sabia se conseguiria cumprir.
— Eu não sei o que fazer — ela sussurrou.
E naquela madrugada, entre o desejo ainda quente e a incerteza do futuro, as duas entenderam que o sentimento já existia.
A pergunta não era mais “se”.
Era “como”.

Capítulo 3 – Um Oceano Entre Nós


O aeroporto parecia mais frio do que realmente era.
Priscila segurava a passagem na mão, mas quem tremia era o coração. A mala já estava despachada. Não tinha mais volta.
Mariana estava ao lado dela em silêncio, tentando ser forte. Mas os olhos denunciavam tudo.
— Então é isso… — Mariana falou baixo.
Priscila respirou fundo.
— É uma oportunidade grande. Eu preciso tentar.
Mariana assentiu, mas a pergunta que estava presa saiu de uma vez:
— E a gente… como fica?
O mundo pareceu diminuir naquele momento.
Priscila segurou as mãos dela.
— Eu não sei como vai ser lá. Eu preciso chegar, entender o trabalho, a rotina… mas eu sei que o que eu sinto por você é real.
Mariana engoliu seco.
— Eu tenho medo da distância.
— Eu também. Mas a gente pode tentar. A gente conversa todo dia. Vídeo chamada. Mensagem. E… se você quiser… pode ir pra lá passar um tempo comigo.
Mariana levantou os olhos.
— Você gostaria disso?
— Muito.
O embarque foi anunciado.
O abraço foi longo. Forte. Daqueles que parecem tentar guardar cheiro, textura, calor.
Quando Priscila passou pelo portão, virou para trás uma última vez.
Mariana estava ali. Parada. Com os olhos marejados. Mas sorrindo.
Portugal recebeu Priscila com ruas antigas, vento gelado e uma sensação constante de novidade. Tudo era diferente: o sotaque, o ritmo, os horários.
Os primeiros dias foram intensos. Trabalho novo. Responsabilidades. Cansaço.
Mas à noite, o celular virava refúgio.
— Me mostra onde você está — Mariana pedia na vídeo chamada.
Priscila caminhava pela janela do apartamento mostrando as luzes da cidade.
— É lindo… — Mariana dizia, com aquele olhar que misturava orgulho e saudade.
Elas começaram a criar uma rotina à distância. Bom dia antes do trabalho. Áudio no intervalo do almoço. Vídeo chamada antes de dormir, mesmo com o fuso diferente.
Não era fácil.
Às vezes o cansaço vencia. Às vezes a saudade apertava demais. Mas nenhuma das duas queria desistir.
Um mês passou.
Depois dois.
Até que numa chamada mais silenciosa, Mariana falou:
— Eu andei pesquisando sobre aí.
Priscila sorriu.
— E aí?
— Eu vou pedir férias em três meses. Quero ir te ver. Quero entender como é sua vida aí.
O coração de Priscila acelerou.
— Você viria mesmo?
— Eu preciso saber se a gente funciona também nesse cenário. Não quero que seja só memória de balada e despedida de aeroporto.
Priscila sentiu algo diferente naquele momento.
Era compromisso.
Era escolha.
— Eu quero viver isso com você — ela disse.
Os três meses seguintes pareceram longos, mas também cheios de expectativa. Planejavam passeios por chamada de vídeo. Mariana perguntava sobre bairros, clima, lugares para visitar.
E mesmo com o oceano entre elas, havia algo firme.
Não era paixão impulsiva.
Era construção.
Era duas mulheres escolhendo tentar, mesmo com medo.
Na última ligação antes de completar três meses, Mariana disse:
— A distância só confirmou uma coisa pra mim.
— O quê?
— Que eu não quero você só quando é fácil. Eu quero quando é difícil também.
Priscila sentiu os olhos encherem de lágrimas.
Portugal já não parecia tão solitário.
Porque, mesmo com quilômetros de distância, elas estavam vivendo um namoro à distância — feito de paciência, saudade, planos e muita vontade de dar certo.
E talvez…
O que começou com dois esbarrões numa balada estivesse prestes a atravessar um oceano inteiro.

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