
O relógio marcava 6h28 quando Ana, professora de literatura, desceu as escadas do metrô segurando sua mochila e uma caneca de café quase vazia. Toda manhã era igual: o som do trem chegando, os passos apressados, o cheiro de pão quente vindo da lanchonete da estação.
Mas havia algo — ou melhor, alguém — que fazia aquela rotina ter um brilho diferente.
Na plataforma, como sempre, estava ela.
A mulher do livro.
Ana não sabia seu nome, mas já tinha reparado em tudo: o cabelo sempre preso de um jeito displicente, a jaqueta azul-marinho, a forma concentrada como lia mesmo com a estação cheia. Ela sempre estava lá às 6h32, sentada no mesmo banco, com um livro aberto nos dedos delicados.
Ana entrou no vagão e, quase por destino, acabou sentando exatamente em frente à mulher novamente. Fingiu estar mexendo no celular, mas seus olhos foram direto para a capa do livro.
Orgulho e Preconceito.
— Bom gosto… — pensou Ana, mordendo o lábio.
O trem começou a se mover, balançando suavemente. A cada freada, a cada curva, Ana arriscava um olhar. A mulher parecia completamente envolvida com a leitura, mas havia algo… algo que fez o coração de Ana acelerar.
Em uma das olhadas rápidas, a mulher levantou o rosto — e seus olhos se encontraram.
Ana congelou.
Para sua surpresa, a mulher sorriu. Um sorriso pequeno, tímido, mas que fez o peito de Ana esquentar como se tivesse tomado um gole de café recém-passado.
— Você gosta da Jane Austen? — a mulher perguntou, levantando o livro um pouquinho.
Ana demorou um segundo para reagir.
— Amo. Sou professora de literatura… eu… — ela riu nervosa. — Eu sempre olho o que você está lendo.
A mulher arqueou a sobrancelha, divertida.
— Então você me observa?
O rosto de Ana pegou fogo.
— Não no sentido assustador! É só que… você parece tão concentrada… e eu sempre fico curiosa.
A mulher fechou o livro com cuidado.
— Eu sou Luísa — disse, estendendo a mão.
— Ana.
O trem passou por outra estação, lotando mais o vagão, mas era como se só existissem as duas ali.
— Eu trabalho perto da sua escola — disse Luísa. — Vejo você entrando no metrô todos os dias. Sempre com essa caneca de café e esse olhar de quem acordou cinco minutos atrás.
Ana deu uma risadinha.
— Eu acordo cinco minutos atrás.
Luísa sorriu.
— Eu… gosto de observar você também.
O coração de Ana disparou de um jeito quase adolescente.
A última estação antes do ponto de Ana chegou. O trem reduziu a velocidade, e ela ficou de pé, sentindo uma pontinha de tristeza por ter que ir.
— Amanhã… você vai pegar esse metrô de novo? — Luísa perguntou, com uma esperança discreta no olhar.
— Amanhã, todos os dias — respondeu Ana. — E talvez… se você quiser… eu posso trazer um café a mais.
Luísa sorriu tão bonito que Ana quase perdeu a estação.
— Eu adoraria.
Ana saiu do vagão com o coração leve e quente, como se tivesse acabado de abrir o primeiro capítulo de uma história que prometia ser muito boa.
Quando olhou para trás, viu Luísa encostando a cabeça para fora da porta, chamando baixinho:
— Ana…
— Oi?
— Eu gosto de romances. E acho que a nossa história tem tudo pra ser um deles.
A porta se fechou, e Ana ficou parada ali, sorrindo sozinha, sentindo que a partir daquela manhã, nada seria comum outra vez.

