
Tudo começou de um jeito intenso demais para parecer acaso.
Ela me curtiu no Tinder.
E não ficou esperando. Foi ela quem puxou conversa — já com uma segurança que chamava atenção. Uma cantada direta, firme, quase ousada. Daquelas que fazem a gente sorrir sozinha para a tela do celular e pensar: essa pessoa sabe exatamente o que está fazendo.
Pouco depois, mandou o Instagram.
Sem rodeios. Sem hesitar.
Aquilo passou a imagem de alguém resolvida, confiante, inteira. Alguém que não tinha medo de se mostrar. Ela falava de encontro como se já estivesse escrito. Idealizava. Dizia que sonhava com um primeiro encontro ao pôr do sol, café na praia, conversa tranquila, sem pressa. Falava bonito. Falava como quem cria um cenário perfeito antes mesmo de existir intimidade. E eu, naquele começo, confesso: me deixei levar pela ideia.
Desde os primeiros dias, era ela quem insistia para que eu fosse conhecê-la. Sempre ela puxava esse assunto. Sempre dizia que queria me ver, que eu deveria ir até lá.
Mas havia algo que não encaixava.
Apesar de insistir tanto no encontro, ela falava pouco. Respostas curtas. Conversas que morriam do nada. Silêncios longos. Sumia e reaparecia como se nada tivesse acontecido. Eu sentia que precisava de mais base antes de atravessar um estado inteiro.
Então eu dizia, com calma, com respeito:
que queria conversar mais,
que precisava conhecê-la melhor,
que queria ligação,
vídeo chamada,
tempo.
Disse claramente que não atravessaria um estado sem me sentir minimamente segura.
Foi aí que tudo mudou.
De repente, ela passou a estar presente o tempo todo. Desde a hora que acordava até a hora de dormir.
Bom dia cedo.
Mensagem ao longo do dia.
Áudio à noite.
Dizia onde estava, o que fazia, se tinha saído, se estava em casa. Quando ia para festas, mandava vídeos, fotos, localização. Às vezes eu dormia antes e, quando acordava, tinha mensagens avisando que já tinha chegado em casa — como se precisasse provar presença, constância, controle.
Mas junto dessa presença excessiva vinha sempre a mesma fala, repetida de formas diferentes, quase como um hábito:
— “Eu sou feia.”
— “Não sou bonita.”
— “Meu cabelo tá horrível.”
— “Eu sou fria.”
— “Não me apego a ninguém.”
Eu elogiava com cuidado. Não era cantada vazia. Era reconhecimento real. Eu falava do que via, do que sentia. E toda vez era a mesma reação: ela travava. Desconversava. Rejeitava. Ficava desconfortável.
Era nítido: ela não se sentia bem sendo bem tratada.
E havia algo mais ali, mesmo que nunca dito com palavras.
Eu trabalhava. Tinha minha vida organizada. Emprego. Casa. Carro. Eu malhava. Me cuidava. Era carinhosa. Presente. E tudo isso parecia deixá-la ainda mais insegura — como se eu fosse boa demais para ser verdade, como se aquilo não fosse real ou fosse demais para ela sustentar.
Quanto mais cuidado eu oferecia, mais ela se fechava.
Às vezes brigava.
Dizia que eu era emocionada.
Que eu estava entendendo tudo errado.
Que eu criava coisas na minha cabeça.
E eu tentava organizar aquilo da forma mais honesta possível.
Mais de cinco vezes, em momentos diferentes, eu disse claramente:
— “Então vamos ser só amigas.”
Não era joguinho.
Não era ameaça.
Era proteção.
E nenhuma dessas vezes ela aceitou.
Ela dizia que eu estava entendendo errado.
Que não era só amizade.
Que queria mais.
Que queria me conhecer.
Que queria tentar.
Ela insistia tanto que começou a me cansar. A me confundir. A me fazer duvidar da minha própria percepção.
Quando eu me afastava, ela puxava de novo.
Quando eu chegava perto, ela recuava.
Ela também dizia que não gostava de toque. Que não gostava que estranhos encostassem nela. Então eu guardava isso no corpo como um alerta constante. Eu não sabia como agir. Como me aproximar. Como existir perto dela.
Mesmo assim, depois de tanta insistência — e com amigas dizendo que talvez fosse melhor ir, olhar nos olhos, acabar com a dúvida — eu fui.
Mas eu não fui confiante.
Havia algo dentro de mim dizendo para não ir. Não era pânico. Era uma intuição silenciosa, insistente. Um incômodo que não passava.
Minha gata ficaria sozinha.
O dia amanheceu chuvoso.
O trânsito travou.
O Blablacar cancelou em cima da hora.
Tudo dava errado.
Pensei em desistir várias vezes. Mesmo assim, continuei.
Blablacar. Ônibus. Uber.
Horas acordada desde muito cedo.
Cansaço físico. Cansaço emocional.
Quando finalmente cheguei… ela não estava lá.
Esperei.
E algo me chamou atenção: não houve frio na barriga. Não houve ansiedade boa. Não houve expectativa. Só um vazio estranho, como se eu estivesse ali sem estar.
Quando ela chegou, o impacto foi imediato.
Ela era muito diferente das fotos. Muito.
Baixa. Extremamente magra. Postura curvada. Um bigode aparente.
Não foi julgamento. Foi choque. Aquela fração de segundo em que a expectativa cai e a gente precisa se reorganizar por dentro para não deixar nada escapar no rosto.
Eu respirei fundo. Sorri.
Tirei da bolsa uma caixa de chocolates da Cacau Show.
— “Olha o que eu trouxe pra você.”
Ela olhou e respondeu:
— “Não sabia que no primeiro encontro se dava presente.”
Aquilo doeu mais do que eu esperava.
Fomos ao shopping comer. Ela foi primeiro comprar o lanche dela. Depois eu fui. Ela sentou. Perguntei se queria comer comigo. Não quis. Disse que não podia. Perguntei se queria Coca. A voz dela quase não saía. Às vezes tentava falar… e simplesmente não conseguia.
Chamei para irmos à praia.
Ao atravessar a pista, pensei em pegar na mão dela. Meu corpo foi. Mas parei. Lembrei de tudo o que ela dizia sobre não gostar de toque. Desisti.
Quando sentamos, falei isso. Contei que tive medo.
Ela disse:
— “Você pode me tocar. Você não é estranha. A gente já se fala há um bom tempo.”
Mas eu já não estava inteira ali.
Falamos de viagens. Eu disse que queria viajar com ela, convidei. Ela disse que iria, mas tinha medo. Falou que, sendo um casal de lésbicas, poderíamos sofrer preconceito viajando juntas. Eu disse que protegeria ela.
Foi ali que a conversa até pareceu melhorar um pouco.
Logo depois, ela voltou a falar do corpo.
Disse que não usava biquíni porque se achava feia.
Que o cabelo estava horrível.
Que iria cortar.
Eu disse que ela era bonita. Que o cabelo era bonito. Que talvez terapia ajudasse. Ela não aceitava nada.
Não tentei beijá-la.
Não tentei nada.
Na hora de ir embora, algo nela mudou. Chamou um Uber, pagou, abriu a porta para mim. Disse que não me deixaria sozinha. Foi cuidadosa. Quase doce. Como se fosse outra pessoa.
No carro, mexi no celular para mostrar um lugar. Uma amiga mandou mensagem:
— “Boa tarde, meu bem, como você tá, meu amor?”
Ela viu. Ficou em silêncio.
Na despedida, eu a abracei.
Ela disse:
— “Sei que você vai me bloquear… mas espera chegar em casa. Vou ficar preocupada.”
Eu não entendi. Abracei de novo. E fui embora com um peso no peito.
No dia seguinte, não teve bom dia.
Percebi que estava bloqueada no Tinder — mas não no Instagram, nem no WhatsApp.
À tarde, ela apareceu como se nada tivesse acontecido.
Perguntei se poderíamos conversar como adultas, sem briga. Ela concordou.
Perguntei por que havia me bloqueado no Tinder. Disse que, se ela só quisesse amizade, não precisava sumir. Que eu entenderia.
Foi aí que ela começou a brigar.
Disse que não tinha me bloqueado, que tinha cancelado a conta.
Disse que não tinha sumido, que tinha ficado sem internet.
Disse que só queria amizade.
Disse que eu era legal.
Mas também disse que não queria ninguém mandando nela.
Eu disse que estava tudo bem.
Mesmo assim, ela brigou.
E nunca mais falou comigo.
Por um tempo, ainda via meus stories.
Depois, nem isso.
E como se não bastasse o emocional, a vida começou a desandar.
Minha gata adoeceu.
O carro quebrou.
O banheiro entupiu.
A caixa estourou.
Nada grave sozinho.
Mas tudo junto.
Tudo de uma vez.
Era como se a intuição que tentou me avisar antes estivesse agora gritando.
Ela nunca disse que eu era demais.
Mas tudo nela reagia como se carinho fosse algo grande demais para caber.
E talvez o encontro nunca tenha acontecido de verdade porque, no fundo, ela não estava pronta para alguém que chegasse inteira — nem para ser tratada bem sem achar que aquilo não era real.


