A história de Aline – O amor que vinha embrulhado em recibos

A história de Aline – O amor que vinha embrulhado em recibos

Aline sempre se dizia uma mulher romântica.
Daquelas que acreditam em gestos, em detalhes, em impressionar logo no começo. Quando começava a conhecer outra mulher, ela não economizava sentimento — nem dinheiro.
No primeiro encontro, Aline aparecia com um buquê de flores. Flores bonitas, bem escolhidas, perfumadas, daquelas que fazem qualquer um sorrir sem perceber. Ela gostava de ver o brilho nos olhos da outra quando recebia o buquê. Aquilo alimentava o ego dela.
No segundo encontro, vinha o perfume. Um perfume marcante, caro, escolhido “pensando na personalidade da pessoa”. Aline gostava de dizer isso, como se já conhecesse profundamente alguém que ainda estava chegando.
No terceiro, chocolates. Finos, importados, bem embalados. Sempre havia um clima de encanto. Quem estava do outro lado se sentia especial, escolhida, valorizada.
Quando o relacionamento engatava de vez, Aline ia além. Começava a comprar roupas, acessórios, surpresas inesperadas. Logo vinha a aliança, como símbolo de compromisso, de algo sério, de um futuro que parecia certo.
Tudo parecia amor.
Tudo parecia cuidado.
Tudo parecia intensidade.
Mas havia um detalhe que ninguém via.
Aline guardava todas as notas fiscais.
Cada flor.
Cada perfume.
Cada chocolate.
Cada roupa.
Cada aliança.
Tudo era arquivado com cuidado, como se fosse um investimento importante.
O problema nunca aparecia no começo. Ele surgia no fim.
Quando o relacionamento acabava — por desgaste, por incompatibilidade ou simplesmente porque o amor não resistiu — Aline mudava. A mulher romântica dava lugar a alguém fria, objetiva, quase calculista.
Ela ligava, mandava mensagem ou aparecia dizendo que queria “resolver pendências”. E então vinha o choque.
Ela pedia tudo de volta.
As roupas.
A aliança.
Os presentes.
Quando a ex dizia, constrangida, que as flores já não existiam mais — afinal, flores morrem — Aline respirava fundo, abria a bolsa ou uma pasta e dizia:
— Tudo bem. Então você me devolve o valor.
E mostrava as notas fiscais. Uma por uma.
Ali, o amor virava planilha.
O carinho virava cobrança.
O relacionamento virava prestação de contas.
As ex ficavam sem reação. Porque ninguém espera que um buquê vire dívida, que um chocolate vire cobrança, que um gesto de amor venha com cláusula de devolução.
Aline dizia que não estava errada. Que tinha “investido demais”. Que não aceitava sair no prejuízo. Para ela, amar era dar — mas esperando retorno, mesmo depois do fim.
E assim, os relacionamentos de Aline acabavam sempre do mesmo jeito: com silêncio, mágoa e a certeza de que aquilo nunca foi só amor.
Porque presente dado não se cobra.
E quando se cobra depois, nunca foi presente.
Foi controle disfarçado de romantismo.

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