A Cidade dos Urubus

A Cidade dos Urubus

Dizem que, no interior esquecido de Pernambuco, existe um lugar que não aparece em mapas… uma cidade onde o silêncio pesa mais do que o calor.


Chamam de Cidade dos Urubus.


Ninguém sabe ao certo quando ela surgiu. Alguns dizem que já esteve cheia, com feira aos domingos, crianças correndo pelas ruas de barro e igrejas lotadas. Outros juram que ela sempre foi estranha… como se algo ali nunca tivesse sido realmente vivo.
O que todos concordam… é sobre os urubus.


Eles estão por toda parte.
Nos telhados das casas abandonadas.
Nos postes enferrujados.
Nos muros quebrados.
E o mais estranho… eles não voam para longe.
Ficam ali. Observando.
Como se estivessem esperando.
O primeiro desaparecimento
Conta-se que um grupo de jovens decidiu ir até lá, desafiando as histórias antigas

Era madrugada quando chegaram — rindo, zombando, gravando vídeos.
No começo, nada demais.
Casas vazias.
Portas rangendo.
Um cheiro estranho no ar.
Até que perceberam…
Não havia nenhum som.
Nem vento.
Nem insetos.
Nem folhas.
Só o leve bater de asas… dos urubus.


Um deles comentou, meio nervoso:
— “Já perceberam que eles tão olhando pra gente?”
Ninguém respondeu.
Porque, naquele momento… todos perceberam.
Centenas de olhos escuros… fixos neles.
A casa no centro
No meio da cidade havia uma casa diferente. Maior. Antiga. Com a porta entreaberta.
Foi ali que tudo mudou.


Quando entraram… o cheiro ficou mais forte. Não era podre exatamente… era algo seco. Antigo.
Nas paredes… marcas.
Como se alguém tivesse arranhado tentando sair.
E no chão…
Penas.
Milhares de penas pretas.


Um dos jovens começou a gravar mais de perto — até que a câmera caiu.
Porque ele viu.
Algo no fundo do corredor.
Parado.
Alto demais para ser uma pessoa.
Magro demais para ser normal.
E cercado… por urubus.
O segredo da cidade
Dizem que aquela cidade foi abandonada depois de uma doença estranha.
As pessoas não morriam de imediato.
Elas… paravam.
Paravam de falar.
Paravam de sair.
Paravam de reagir.
Ficavam imóveis… como se estivessem esperando algo.
E então… os urubus chegavam.
Mas não para comer.
Para ficar.
Observando.
Guardando.
O final que ninguém conta direito
Dos jovens que foram até lá… só um voltou.
E ele nunca mais foi o mesmo.
Dizem que ele não fala mais.
Fica horas parado… olhando pro nada.
Às vezes… olhando para o céu.
Como se estivesse esperando.
E, de vez em quando…
Urubus aparecem perto da casa dele.
Ficam no telhado.
Nos fios.
Nos muros.
Sem fazer barulho.
Só observando.
E tem gente que jura…
Que a cidade não está abandonada.
Só está…
Esperando mais gente chegar.

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