
João era um menino magro, de pele queimada de sol e olhos curiosos, sempre com um sorriso tímido no rosto. Tinha entre 14 e 15 anos, e todos os dias, desde cedo, caminhava pelas areias quentes da Praia de Boa Viagem com sua lata de amendoim pendurada no ombro. O som das moedas batendo dentro era como uma música de esperança — cada venda ajudava um pouco a sustentar a mãe e os dois irmãos mais novos.
Mas naquela manhã de quarta-feira, o mar parecia diferente. As ondas vinham mais fortes e o vento soprava de um jeito estranho, como se sussurrasse algo que João não conseguia entender. Mesmo assim, ele seguiu com o cesto, gritando:
— “Olha o amendoim! Quentinho, torrado na hora!”
Enquanto caminhava, notou que um homem de chapéu escuro o observava de longe. Sentado debaixo de um guarda-sol preto — algo incomum naquela praia ensolarada — ele parecia não se mover. João desviou o olhar, mas toda vez que olhava de novo, o homem ainda estava lá, parado, encarando-o.
O garoto sentiu um arrepio subir pelas costas.
Mais tarde, quando o sol começou a se esconder atrás dos prédios, João decidiu ir embora. Guardou o resto dos amendoins, contou o dinheiro e começou a caminhar pela areia úmida. Foi então que percebeu pegadas seguindo as suas.
Ele olhou para trás: ninguém.
Mas as marcas estavam lá, lado a lado com as suas, afundando lentamente na areia.
Apurou o passo. O vento ficou mais frio.
A cada passo, o som das ondas parecia se misturar com outro — um tilintar metálico, como se alguém arrastasse algo.
João se virou de novo… e viu o homem do chapéu preto a poucos metros dele, vindo em sua direção.
O garoto correu, atravessando a faixa de areia até alcançar o calçadão. As pessoas já estavam indo embora, as barracas fechando, o céu ficando cinza. Entrou numa viela que levava aos fundos de uma pousada abandonada — um atalho que só ele conhecia.
Mas quando passou pelo portão de ferro, o som das ondas sumiu. Tudo ficou em silêncio.
Lá dentro, o ar era pesado, cheirando a mofo e maresia. João tentava ouvir passos, mas só escutava o próprio coração batendo forte. Foi então que ouviu uma voz baixa, rouca, sussurrando perto do ouvido:
— “Você tem algo que era meu, menino…”
João se virou assustado, mas não havia ninguém.
A lata de amendoim em sua mão estava vibrando — o som das moedas lá dentro tinha mudado. Abriu devagar e, em vez de moedas, encontrou conchas pequenas, todas quebradas e cobertas de areia escura, como se tivessem vindo do fundo do mar. No meio delas, um pedaço de corrente enferrujada.
O garoto deu um grito e deixou a lata cair. As conchas rolaram, e uma delas se partiu ao meio, revelando dentro um olho humano, ainda úmido, que o encarava fixamente.
Ele correu em desespero para fora da pousada, mas quando chegou de volta à praia, o cenário era outro.
Não havia mais barracas, nem turistas, nem vozes. Apenas o mar — calmo, parado, com o reflexo pálido da lua.
E lá, sentado sobre uma pedra, o homem de chapéu esperava.
— “O amendoim é só o começo, João…” — disse ele, com um sorriso frio.
João quis correr, mas suas pernas não obedeceram. Olhou para baixo — seus pés estavam enterrados na areia até os tornozelos.
A areia o puxava lentamente para baixo, fria e pesada, enquanto o homem se aproximava, arrastando a corrente que agora brilhava sob a luz da lua.
A última coisa que João ouviu foi o som familiar do vendedor ecoando na escuridão:
— “Olha o amendoim…”
Mas agora era outra voz.
Uma voz que não era mais a dele.
👁️ Fim (ou começo?)
