
Dizem que há espelhos que não mostram apenas o reflexo — mostram o que você precisa ver.
Helena encontrou o espelho no sĂłtĂŁo da casa da avĂł. Era antigo, moldura de madeira escura e pequenos sĂmbolos esculpidos, como luas e estrelas. Quando ela limpou a poeira, o vidro tremeu levemente… e, por um instante, refletiu uma sala diferente da que ela estava.
Curiosa, Helena se aproximou.
A imagem mostrava uma mulher de cabelos prateados, vestindo azul-claro, parada em meio a um campo de lavanda. Ela sorria.
— Você voltou… — disse a mulher, mesmo sem que Helena tivesse aberto a boca.
Helena sentiu um arrepio.
— Voltei? — perguntou, confusa. — Eu nem sei quem é você.
A mulher no espelho sorriu com ternura.
— As almas se reconhecem, mesmo quando a memória dorme.
A frase ficou ecoando. O vento soprou, fazendo o espelho estremecer mais uma vez. Helena tocou o vidro e, por um instante, sentiu calor — não o frio do metal, mas o calor de uma mão segurando a dela.
De repente, o campo de lavanda desapareceu.
No espelho, agora, estava apenas Helena… mas com um detalhe: uma pequena flor lilás atrás da orelha, igual à que a mulher usava.
O coração dela disparou.
Talvez fosse apenas imaginação.
Ou talvez o espelho tivesse lhe mostrado uma lembrança de outra vida.
Naquela noite, Helena sonhou com o mesmo campo, o mesmo perfume, e a mulher de azul dizendo:
“Quando a lua for cheia, me procure entre os reflexos. Eu estarei te esperando.”
Desde então, toda vez que a lua brilha cheia no céu, Helena acende uma vela diante do espelho e sussurra:
“Eu ainda lembro.”
E jura que, nas noites mais silenciosas, ouve uma voz responder do outro lado.
