
Capítulo 1 — A Chave Enferrujada
Eu não acredito em lendas. Nunca acreditei. Sempre achei que história de assombração era só jeito de povo pequeno transformar fofoca em mistério. Foi por isso que, quando me disseram que havia um kitnet barato disponível no centro de Goiana, eu nem pensei duas vezes.
“Só não fica muito tempo lá”, me alertou o rapaz da padaria, enquanto embrulhava um pão doce.
“O problema não é o preço. É a velha.”
Eu ri. Ele não riu de volta.
O kitnet ficava numa casa antiga, com reboco descascado e portão verde — um verde fosco, que parecia ter desistido de brilhar faz tempo. A chave que me entregaram… bom, ela não parecia ter sido usada desde que o rádio tocava Reginaldo Rossi em vinil.
Enferrujada. Pesada demais para uma porta tão simples.
O corretor entregou as chaves rápido, como quem se livra de algo. Perguntei se a antiga dona ainda morava ali.
Ele respondeu sem olhar nos meus olhos:
— Morava. Mas já morreu faz tempo. O nome dela era Dona Sebastiana.
E então, antes que eu perguntasse qualquer outra coisa, ele disse a frase que me acompanharia até hoje:
— Só te digo uma coisa: se ouvir barulho de panela de madrugada… não abre a porta da cozinha.
Eu sorri de canto, achando graça. Mas dentro do bolso, a chave parecia mais fria a cada passo que eu dava em direção ao que logo descobriria… não ser apenas um lugar pra morar.
Capítulo 2 — O Primeiro Barulho na Cozinha
A primeira noite parecia normal. Eu ainda estava cansado da mudança, então só arrumei o essencial: colchão no chão, um ventilador que fazia mais barulho que vento, e uma garrafa d’água ao lado. Nada demais. Nada estranho.
Mas o kitnet… tinha um silêncio diferente.
Não era silêncio de casa vazia. Era silêncio esperando alguma coisa.
Eu tentei ignorar. Atribuí isso à minha imaginação. Às histórias da padaria. Ao corretor nervoso. Ao jeito como todo mundo, em Goiana, parecia travar a boca quando eu perguntava sobre Dona Sebastiana.
Às 2h37, acordei.
Não sei se por causa do calor…
Ou porque ouvi algo.
Era um som metálico.
Tin-tin.
Tin… tin…
Como se alguém estivesse mexendo panelas.
Na cozinha.
A cozinha que eu não tinha usado ainda.
A cozinha onde ninguém deveria estar.
Lembrei do aviso:
“Se ouvir barulho de panela de madrugada… não abre a porta.”
E foi só aí que percebi: eu não estava com medo do barulho…
Eu estava com medo de quem estava fazendo ele.
O som parou de repente.
Como se soubesse que eu estava acordado.
E então…
veio outra coisa.
Uma voz.
Fraca. Velha.
Sussurrando algo que eu não conseguia entender.
Não era dentro da cozinha.
Era mais perto.
Atrás da porta do meu quarto.
Capítulo 3 — A Voz da Velha
A porta do quarto era fina. Eu conseguia ver a fresta iluminada pela luz da cozinha, mesmo sem ter acendido nada antes de dormir.
A voz voltou. Baixa, arrastada.
Não era gemido. Não era reza. Não era lamento.
Era como se alguém estivesse… chamando.
— Vem… comer…
Eu congelei.
A voz era de mulher. Idosa. Raspada, como se tivesse passado a vida fumando e guardando segredos.
— A comida tá quente…
Vem… antes que esfrie…
Eu não respondi. Eu não me mexi. Eu mal respirava.
A maçaneta da porta começou a girar.
Sozinha.
Lentamente.
Sem vento. Sem motivo.
Sem ninguém ali — pelo menos, ninguém vivo.
Quando a porta abriu só um palmo, a voz ficou clara:
— Os outros também demoraram.
E todos esfriaram.
Eu bati a porta com força, travei com o que pude e passei o resto da madrugada sentado no chão, de costas para ela.
Foi nessa posição que o dia amanheceu.
E foi assim que eu entendi:
a velha não tinha ido embora.
Capítulo 4 — O Que Há Dentro da Cozinha
Resolvi ir embora. Não ia esperar a próxima madrugada. Comecei a juntar minhas coisas quando ouvi algo que não combinava com uma casa vazia:
Talheres. Batendo em prato.
E cheiro.
Cheiro de comida quente.
Arroz, carne cozida, cheiro verde, alho frito — exatamente como as vizinhas disseram que Dona Sebastiana cozinhava pros inquilinos.
A cozinha estava com a porta entreaberta.
Eu sabia que não devia. Mas alguma coisa — curiosidade, medo, ego, não sei — me fez empurrar a porta.
A mesa estava posta.
Dois pratos.
Dois copos.
Uma panela ainda soltando vapor.
E no prato da frente…
tinha arroz.
Carne.
E algo que não era carne de boi, nem de frango.
Era osso humano.
Pequeno demais pra ser adulto.
Dente ainda preso.
Mandíbula.
Na parede, escrita com o que parecia sangue:
“NINGUÉM VAI EMBORA SEM COMER.”
A cadeira à minha frente puxou sozinha… como se alguém tivesse acabado de sentar.
E antes que eu fugisse, eu ouvi de novo:
— Sentou? Agora come.
Capítulo 5 — O Último Inquilino (final)
Eu consegui correr.
Não lembro como derrubei porta, nem como parei na rua, nem como cheguei na padaria. Só lembro do padeiro me olhando como quem já viu essa história antes.
— Você entrou no kitnet, né?
Eu só balancei a cabeça, suado, pálido, sem ar.
Ele não perguntou detalhes.
Só disse:
— Você durou mais que o último.
Ele ficou só duas noites.
Eu nunca mais voltei lá.
Mas até hoje, quando passo pelo centro de Goiana, vejo o portão verde. Sempre fechado, sempre enferrujado. Mas a janela da cozinha?
Ela nunca está totalmente escura.
Às vezes, dá pra ver uma silhueta.
Curvada.
Mexendo panela.
Como se ainda esperasse o próximo inquilino.
E dizem que, se alguém tiver coragem de alugar de novo…
a mesa ainda está posta.
Dois pratos.
Um vazio.
O outro esperando.
Porque Dona Sebastiana…
nunca come sozinha.
