O Dia em que a Rocheda Levou Três Lapadas do Boneco de Olinda

O Dia em que a Rocheda Levou Três Lapadas do Boneco de Olinda

Carnaval em Olinda.
Sol rachando o quengo sem piedade.
Empurra-empurra na ladeira.
Gente suada subindo e descendo.
Muito brilho.
Fantasia piscando no meio do calor.
E aquele cheiro clássico da ladeira: cigarro, cerveja derramada, urina escondida e suor evaporando no ar quente.
A gente já vinha rodando fazia horas.
Passamos pela Pitombeira dos Quatro Cantos.
Depois cruzamos com o Patusco.
Teve frevo, samba, forró… todo tipo de ritmo.
E a cada bloco… Francisca hidratava.
Cerveja atrás de cerveja.
Sol fritando o juízo.
Glitter colado no suor.
Ela já estava completamente doidona.
Foi quando a gente decidiu seguir mais um bloco.
Era o bloco Ceroula.
A banda vinha atrás, tocando forte.
O boneco gigante vinha no meio do povo, balançando imponente.
E o bloco todo acompanhando, pulando atrás da banda.
A gente começou a seguir.
Pulando.
Rodando.
Cantando.
E eu, que sou de Olinda, já conheço o movimento.
Quando o boneco começa a balançar daquele jeito… ele vai rodar.
E quando roda… não é carinho.
Francisca começou a se aproximar do boneco.
Eu falei:
— Mulher, sai daí!
Ela: — Oxe, por quê?
Eu: — O boneco, menina! Ele vai meter a mãozada em você!
Ela rodando no meio do povo, toda confiante:
— Que nada! Eu sou ROCHEEEEDA! Isso nem dói!
Eu já nervosa:
— Mulher, a mão dele é pesada! Vai bater em tu!
E ela indo pra cima.
Eu puxei uma vez.
Ela voltou.
Puxei duas.
Ela escapou.
Na terceira, quarta, quinta vez eu puxando ela pra longe… e ela voltando pro boneco dizendo:
— Eu sou poderosa!
— Eu sou o cavalo do cão!
— Esse boneco não me derruba!
E eu pensando: “Pronto. Desafiou a entidade errada.”
Foi aí que começou a tocar o hino do bloco Ceroula.
A banda atrás acelerou.
O frevo explodiu.
O povo gritou.
E o boneco, no meio, ficou animado.
Ele começou a rodar.
Girou.
Girou mais rápido.
E eu ainda gritei:
— FRANCISCA, SAI AGORA!
Tarde demais.
PÁ!
Primeira lapada na cara.
Ela piscou forte.
PÁ!
Segunda lapada.
A rochedа começou a rachar.
PÁ!
Terceira lapada.
A rochedа virou areia de construção.
Ela rodou mais que o boneco e caiu sentada na ladeira, completamente desmontada, olhando pro nada enquanto o frevo continuava.
A banda seguiu atrás.
O boneco continuou no meio.
O bloco continuou pulando.
Só a rochedа tinha sido oficialmente testada e reprovada.
Eu puxei ela pelo braço.
Ela, tonta, murmurou:
— Esse boneco é ignorante…
Ignorante não.
É tradição de Pernambuco.
E em Olinda…
Boneco balançou… vai rodar.
E rochedа também leva lapada.

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