
O Arroz Amaldiçoado
No interior, onde tudo é simples e o silêncio fala alto… aconteceu uma história que até hoje ninguém gosta de comentar.
Dizem que foi por descuido.
Outros… dizem que foi algo pior.
Havia uma mulher que vivia com o marido em uma casa simples, cercada por plantações e galinhas no quintal. Como toda família do interior, eles guardavam grandes sacos de arroz — era alimento garantido por meses.
Um dia, enquanto limpava a despensa, ela derrubou sem querer um pouco de veneno de rato.
O pó fino caiu… direto em um dos sacos de arroz.
Ela parou.
Olhou.
Pensou.
E tomou uma decisão.
— “Foi só um pouquinho… não vai fazer mal.”
Naquele mesmo dia, ela cozinhou o arroz.
Serviu no prato.
Ela e o marido comeram normalmente.
Mas, horas depois… começaram a passar mal.
Foram levados às pressas para o hospital.
Ela melhorou.
Ele… não.
Enquanto o marido lutava pela vida internado… ela voltou pra casa.
E lá estava o arroz.
O mesmo arroz.
Ainda cheio.
Ela não quis desperdiçar.
Jogou tudo para as galinhas no quintal.
As aves correram, comeram com vontade…
E, pouco tempo depois…
começaram a cair.
Uma por uma.
Sem som.
Sem luta.
Só caíam.
Naquele mesmo dia…
o telefone tocou.
O marido dela… tinha morrido.
A casa ficou em silêncio.
Pesado.
Estranho.
Mas ainda havia o enterro.
E no interior… enterro é reunião.
Gente vem de todo canto.
E precisa de comida.
Sem dinheiro… e com as galinhas mortas…
ela tomou mais uma decisão.
Preparou tudo.
Assou.
Temperou.
Serviu.
As pessoas chegaram.
Choraram.
Abraçaram.
E comeram.
Ela não conseguiu.
Disse que estava sem fome.
Ficou sentada… olhando.
Observando.
Naquela noite…
os primeiros começaram a passar mal.
Depois… outros.
E outros.
Dizem que aquele velório… virou tragédia.
Quase ninguém que comeu… voltou para casa.
E a mulher?
Ninguém sabe ao certo.
Alguns dizem que enlouqueceu.
Outros dizem que desapareceu.
Mas tem gente que jura…
Que, em noites silenciosas no interior…
dá pra ouvir galinhas cacarejando…
mesmo onde não existe mais criação.


