
O Mês que Nunca Terminou
Naquela pequena cidade do interior, onde o tempo parecia andar devagar, havia uma casa simples no fim da estrada.
Ali vivia Dona Alzira.
Uma mulher humilde, querida por todos, conhecida pela sua bondade silenciosa. Sempre ajudava quem precisava, sempre dividia o pouco que tinha.
Mas dentro de casa, sua vida era outra.
O marido era bruto. Gritava, batia, mandava. E ela obedecia — não por vontade, mas por medo.
Certo dia, ele voltou da cidade trazendo um pacote estranho.
— Isso aqui é bom pra comida — disse, jogando o embrulho sobre a mesa. — Usa.
Ela estranhou. O cheiro era forte, diferente. Aquilo não parecia tempero.
Mas questionar não era uma opção.
Guardou o pacote junto aos mantimentos: grandes vasilhas de arroz, feijão, milho… comida que tinha separado com esforço para o mês inteiro.
Naquela tarde, enquanto organizava a cozinha, o gato passou correndo e derrubou o pacote.
O pó se espalhou.
Não só na mesa.
Mas dentro das vasilhas abertas.
Misturou-se ao arroz, ao feijão, ao milho.
Dona Alzira tentou limpar o que viu.
Mas não percebeu o quanto já tinha sido contaminado.
Mais tarde, fez a comida, seguindo a ordem do marido. Usou um pouco daquele pó, acreditando que era apenas um tempero diferente.
Naquela noite, ele comeu bastante.
Ela, quase nada.
Horas depois, os dois passaram mal.
Foram levados às pressas para o hospital.
Enquanto isso, a casa ficou aberta.
Os vizinhos, preocupados, entraram para ajudar. Limparam o fogão, organizaram a cozinha… e viram a quantidade de comida guardada.
Era mantimento para um mês inteiro.
Como era costume na cidade, decidiram não deixar estragar.
Cada um pegou um pouco.
Arroz. Feijão. Milho.
Levaram para suas casas.
E antes de sair, deram o resto da comida que estava pronta para os porcos do quintal.
Dias depois, a cidade começou a mudar.
Primeiro, um vizinho passou mal.
Depois outro.
Depois vários.
Gente sendo levada ao hospital às pressas, sem entender o motivo.
Dona Alzira, ainda internada, não sabia de nada.
Até que recebeu a notícia:
o marido havia morrido.
Quando teve alta, voltou para casa com o coração pesado.
E encontrou o quintal em silêncio.
Os porcos estavam mortos.
Todos.
Sem entender o motivo, achou que fosse doença, abandono… qualquer coisa explicável.
Mas o luto não permitia parar.
Naquela cidade, morte significava reunir pessoas. Significava comida na mesa, gente chegando, despedida.
Mesmo fraca, ela fez o que achava certo.
Aproveitou a carne dos porcos.
Preparou tudo.
Cozinhou, assou, organizou.
Era o último gesto de cuidado.
Era a despedida.
No dia do enterro, a casa encheu.
Familiares, vizinhos, conhecidos.
Todos comeram.
E, mais uma vez…
o silêncio começou.
Um por um, começaram a passar mal.
Alguns nem conseguiram voltar para casa.
Outros foram levados às pressas.
Muitos não resistiram.
A cidade inteira entrou em choque.
Até que descobriram.
O pacote.
O pó.
O veneno.
Um homem que odiava o marido, cansado das brigas e agressões, havia entregue aquilo disfarçado, esperando que apenas um destino fosse selado.
Mas não foi.
O ódio não parou em um homem.
Se espalhou pela comida.
Pelas casas.
Pelas mãos de quem só queria ajudar.
E no centro de tudo…
Dona Alzira.
Que nunca soube.
Que nunca quis.
Que só obedeceu.
Dizem que ela nunca mais foi a mesma.
Que parou de cozinhar.
Que evitava pessoas.
E que, até o fim da vida, repetia em voz baixa:
“Era pra durar um mês…”
A casa ainda está lá.
Mas ninguém entra.
Porque naquela cidade, todos aprenderam da forma mais dolorosa:
às vezes, o que mata não é a intenção…
é o que ninguém viu a tempo.



